Entristece-me a madrugada nebulosa, As cores cinzentas de esperança chuvosa. Nem um raio de sol, uma abertura de céu azul; A bússola só aponta para sul. Flores primaveris nem vê-las; A humidade escorre pelas entranhas. Os faróis dos carros iluminam estradas, Que na brancura se encontram escondidas. E depois a chuva cai que nem lágrimas; E o tempo chora as últimas; Acaba por desmoronar a palidez E mais ninguém vem com porquês. E o céu voltou na noite estrelada, E a lua mostrou-se encantada. Estrelas abrilhantaram o manto escuro Parecendo que o dia não foi duro. Voltam os cagarros, e a sua música noturna, E os morcegos antes que "noturna" passe a "diurna". E de repente a lua beija o mar, E era hora de acordar. Sem ti eu sentia-me como céu cinzento, Por dentro transformava-me em tormento. E depois acordaste-me da escuridão, Envolveste as tuas mãos no meu coração. Queria que soubesses que te amo, Que é a ti que aos Deuses reclamo, E que quando não estás aqui, O tempo é escuro em mim.
Tanto tempo que viviam pela calada Naquela longa estrada; Monótona, muda, a preto e branco; A ditadura era um atravanco. Vozes caladas na solidão De quem um dia quis falar, Recorda-se hoje, com gratidão, O que há 41 anos Portugal viu passar.
Foram cravos; Foram gritos; Foram bravos, Inclítos.
"O povo é quem mais ordena" Porque a força é do tamanho Que os homens queiram, E a voz do povo é mais poderosa Que o período da ditadura.
Façam-se ao mundo, "Grândola Vila Morena", Que o povo consegue tudo, Se não tiver alma pequena.
Haverá vida num corpo? Ou a alma é a vida que existe na gente.
Ou será que tudo mente? Ou será que nada vive? Nada é mais fulgente Que a vida num corpo prudente. Vem alma corroída, E vem sem vida; Que por madrugada foi esquecida, Estatelada em plena estrada, agredida. Socorram as almas do chão, Que o vento as vai levar; Terminem com a agressão De quem não as quer amar. Se Deus nos fez gente Foi para amarmos com calma. Mas, sinceramente, O corpo é a vida que mente? Ou somos vida em alma?